Angélica Abreu: a guria que está há 10 anos à frente do Tambo do Lageado




Angélica Silva Abreu, 26 anos, natural do Alegrete, está há 16 anos na atividade leiteira. Completou neste ano, 10 anos à frente do Tambo do Lageado. A guria se profissionalizou e tomou à frente das atividades. Trabalhando em família com o pai, Nelson Severo Abreu; mãe, Almancina Silva Abreu e o irmão Gilberto Silva Abreu.
Possui o ensino médio completo. Quando estava concluindo, o irmão ingressava na escola Agrotécnica (na época EAFA), e os pais não tinha condições de manter os dois filhos estudando. Um problema de saúde com o pai fez Angélica voltar e trabalhar no Tambo.
Criou a marca Tambo do Lageado. Buscou profissionalizar-se com cursos e palestras gratuitos direcionados ao setor, Angélica teve a oportunidade de evoluir e trazer novas tecnologias para a propriedade.
Conta que em 2012, passou a ter um acompanhamento do engenheiro agrônomo, Juliano Alacron Fabrício, carinhosamente chamado por ela como Dr. Pastagem). A reestruturação do rebanho e o controle financeiro foi o diferencial do Tambo. Com o domínio de todos esses fatores conseguiu um aumento significativo na renda da propriedade, saindo de 250 litros dia para os atuais 1.000 litros.
A guria recebeu a reportagem do Portal Alegrete Tudo para uma entrevista. Ela também faz um trabalho no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, juntamente com a Fetag, coordenando regionalmente a juventude, incentivando e ajudando aos jovens a terem condições de darem sucessão às propriedades, evitando o êxodo rural.
Confira o bate-papo:
Portal: Como é tua rotina no Tambo do Lageado ?
Angélica: Acordar, tomar um café com leite, ordenhar, tratar a terneirada, tratar as vacas secas (que vão parir), manutenção geral e se possível dar uma trabalhada no escritório. À tarde se repete mais ou menos o mesmo roteiro. Pois a lida no tambo é bastante rotineira.
Isso tudo quando não estamos trabalhando na lavoura com os fenos ou quando não se tem uma das “gurias” doente e ou pra parir. Uma coisa é certa, as ordenhas e o trato delas não tem dia, feriado ou tempo ruim.
Portal: O que mudou desde a conquista do Troféu Senar ?
Angélica: Na verdade o que muda realmente é o olhar daqueles que não tem conhecimento da atividade, pois por aqui segue no mesmo choro, porém com cada vez mais responsabilidade de fazer dar certo, mesmo diante das dificuldades, que aqui não chamamos jamais de crise.
PortalNo Fórum Itinerante tu apresentou uma palestra bem humorada. De forma simples conseguiu chamar a atenção. Essa é uma caraterística da Angélica ?
Angélica: Participar de um programa estadual Leitec e no evento da AVISULAT, onde o pai foi chamado para dar um depoimento sobre os resultados na propriedade, ele decidiu que eu deveria ir. Então fomos juntos, quando chegou na nossa vez estavam todos desanimados, cansados e com fome (pois era quase meio-dia), daí num ímpeto de fazê-los saírem dali com algo pra se lembrar, eu tentei ser, digamos, original. Perguntei quantos tinham orgulho de produzir comida e não obtive sucesso, então decidi fazer com eles entendessem a importância que tinham. Talvez foi isso o “sucesso” que disseram, para mim, não fiz muito. Então, como sempre munida de inúmeras fotos eu escolhi umas 15 que ilustravam a minha propriedade e a importância dela pra mim e fui mostrando de uma forma bem diferenciada.  
Portal: Tua ligação com os animais. O manejo é recheado de carinho. Como é trabalhar nessa sincronia com as vacas leiteiras ?
AngélicaA atividade permite, pois uma vaca convive até 15 anos ou mais conosco, mas a individualidade animal é impressionante, algumas mais carinhosas, outras mais espertas, outra mais malvadas, algumas ciumentas. Então eu as inseminando me permite o contato inicial ainda no sêmem. Já tenho dezenas de “gurias” que são fruto dos meus punhos. Assim que nascem, em aproximadamente 12h já as retiro das “barrigas de aluguel”, (risos). E então viram minhas filhas, ganham um nome e um lugar no meu coração até o fim. Pensa na dor na hora de vender, coisa inclusive que faço questão de fazer para quem irá cuidar como eu cuido. Já houve casos que não cuidaram e eu comprei de volta.
Portal: E a Morocha é diferenciada. Que história é essa ?

Angélica: #TudoCulpaDaMorocha, Eu ganhei uma terneira que se chamava Osquinha que morreu afogada na sanga depois de uma cheia, logo após o parto da Sol. Quando a Sol fez cio, foi uma das primeiras vacas que eu inseminei. Logo após o parto, o pai se apertou e precisou vendê-la, muito triste, concordei, mas o fiz prometer que jamais iria vender a Morocha. Hoje a Morocha tem 8 anos, foi fruto daquelas primeiras inseminação que efetuei aqui. É mãe e avó e bisavó de animais que contribuíram para o crescimento do Tambo, pois nem ela e nem suas filhas nunca pariram machos, por ela ser tão dócil e adorar ser o centro das atenções, possibilita retratos os quais a fizeram reconhecida.

Portal: Uma produtora rural num meio dominado por homens. Alguma dificuldade ? Já sofreu algum tipo de preconceito ?
Angélica: De fato, mas destaco que há inúmeras mulheres que trabalham na atividade, apenas não há visibilidade. Sobre preconceito, acho que não, pelo menos não lembro ou nunca me importei pra falar a verdade. Viver em função da aprovação alheia não  é viver, seria representar. Fato que já ouvi muito: Tu só fala de vaca! (risos). Não encaro como crítica, mas no geral é mais espanto e na maioria das vezes as reações que chegam até mim são bastante positivas e encorajadoras.
Portal:Tambo não participa de exposições agropecuárias ?
AngélicaNão levo minhas “gurias” paras as feiras, já trabalhei de responsável pelo manejo de ordenha nas exposições agropecuárias de Alegrete e percebi o quanto os animais são exigidos, lembrando que eu não me importo com a vaca que mais dá leite e sim aquela que dá leite por mais tempo. Sem falar que como trabalhamos em família, a logística se torna complicada, pois o trabalho no tambo não para. Mas acho que no fundo elas iam adorar ir, confesso que teria muito ciúme (risos).
Portal: Qual o segredo do sucesso ?
AngélicaO segredo? Não é segredo para ninguém. Amor. Entre nós (família) e nós e elas (vacas).
 
Portal: Tu estudou, buscou especialização foi atrás do que queria. Qual a maior dificuldade encontrada ?
Angélica: Conclui o ensino médio, fiz cursos para aplicar na propriedade e estou sempre buscando novas tecnologias, lançamento de produtos. A maior dificuldade na época era financeira, pois a propriedade se localiza a 40km da cidade e eu não tinha carro, hoje eu diria que ainda é, mas as dificuldades são outras, a cada dia que passa o tempo gasto com elas é maior e um curso superior iria exigir meu afastamento e no momento é fundamental minha presença aqui.
Portal: Como concilia tua vida pessoal com a de produtora.
AngélicaComo conciliar? Meio complicado  os relacionamentos, sejam do tipo que forem. Amigos sabem o quanto sou ausente e familiares os vejo raramente. Tiro mais de mês sem ir à cidade fácil, fácil. Ainda mais reassumindo as atividades no Sindicato dos trabalhadores rurais, as viagens me consomem todo o tempo que teria para lazer. Então o mesmo se resume num baile gaúcho ou então numa pescaria naquela escapada da lida.
Portal: Qual é a meta da Angélica para este ano de 2017 ?
Angélica: Meta? Acho que eu dobrei a meta. (risos). Bah! Mas na verdade consiste em sempre ter amor no que se faz, a satisfação em ver a coisa andar “lindaça” e ainda motivar os outros.
Portal: Qual a mensagem que tu daria para os jovens que vão escolher a área de produção leiteira ?
Angélica: Tempos difíceis não são tempos pra parar de tentar! Quando se é “miúdo”, tem tanta coisa que se atravessa (dificulta), mas também tanta coisa que se apresenta (aparece), saber diferenciar não é changa. Mas lembro que se vai ingressar na atividade que de fato não é nada fácil, mas se for realmente da tua vontade, procure assistência técnica, se especialize, se profissionalize e, principalmente, faça comida pras vacas antes de adquirir as coitadas pra não  sofrerem, como costumo ver por aí. Lembro que todos aqueles que entraram na atividade pensando que dá dinheiro, hoje pararam, pois não se vive do leite e sim do lucro que o mesmo gera. E pras mulheres: vale a pena, pois a atividade exige jeito, capricho, carinho e atenção. “Se você não trabalhar pra construir teus sonhos, alguém irá te contratar para construir os dele”

Por: Júlio Cesar Santos                    Fotos: Arquivo pessoal




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1 Comentário

  • Sérgio Cleiser Aguilar Dias

    PARABÉNS, Angélica Abreu, pela tua dedicação, pelo teu profissionalismo, pelo teu empenho e, principalmente, pelo teu sucesso. Fico feliz por ti!!!

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