MP flagra leite azedo e faz nova operação contra transportadora e cooperativa

Mandados de prisão preventiva, cautelar e de busca e apreensão foram cumpridos em três municípios da Região Norte

mp

O Ministério Público do Rio Grande do Sul deflagrou, na manhã desta quarta-feira, mais uma fase da Operação Leite Compen$ado. Em dois anos, esta já é a oitava etapa de uma insistente ofensiva das autoridades para tentar acabar com uma fraude gananciosa de adulteração na cadeia de produção do leite no Estado. Desta vez, os alvos são uma transportadora e uma cooperativa da Região Norte, que foram flagradas no esquema para mascarar leite azedo que acabava sendo repassado ao consumidor.

Foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva, três medidas cautelares e oito mandados de busca e apreensão nas cidades de Campinas do Sul, Jacutinga e Quatro Irmãos. Quatro caminhões foram apreendidos. A operação contou com integrantes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Receita Estadual e apoio da Brigada Militar.

O esquema era liderado pela Transportes Odair Ltda e pela Cooperativa de Pequenos Agropecuaristas de Campinas do Sul (Coopasul). Laudos realizados por dois laboratórios credenciados ao Mapa comprovaram a fraude que consistia em alterar a quantidade, densidade e a acidez elevada do leite, adicionando água, sal, açúcar, amido de milho e até mesmo soda cáustica.

Os investigados são: Odair Melati e Delair Salete Bolis Melati, casal proprietário da transportadora, Ariel Paulo Narzetti, presidente da Coopasul, o contador da empresa, Hélio Bortolomeu Marengo, o responsável pelo laboratório da cooperativa, Douglas Bonfante, os três motoristas Vilmar Bonfante, Franciel José Lazari e Ezequiel Ivan Sakrczewski, e ainda a produtora rural Lídia Bucior Poganski.

Conforme as investigações, Odair organizava e adulterava o leite. A esposa dele, Delair Salete, gerenciava o esquema. Os três motoristas, o presidente da Coopasul e o chefe do laboratório também participavam ativamente da fraude, recebendo o produto adulterado e misturando o leite “velho” com o “bom” para entregar ao consumidor.

Ouça áudios das interceptações telefônicas:

A produtora rural, Lídia, recebia em sua conta na cooperativa até o triplo do leite que era coletado na propriedade, o que servia para disfarçar o aumento no volume a partir da adição de água. O contador, por sua vez, “ajeitava” o Imposto de Renda de Lídia, alterava notas e servia de elo contábil fundamental para amparar as irregularidades, fechando o ciclo formado para burlar a legislação e enganar a população.

Os mandados foram cumpridos pelos promotores Mauro Rockenbach, Alcinco Luz Bastos da Silva Filho e Aureo Gil Braga. De acordo com Rockenbach, a Transportes Odair Ltda era responsável por 600 mil dos 1,4 milhão de litros mensais de leite que eram processados na Coopasul — ou seja, quase a metade da movimentação. Em toda safra, a quantidade irregular era ainda mais significativa.

Despreocupada com qualidade, a transportadora buscava o leite nas propriedades rurais da região dois dias depois do prazo máximo para evitar o desperdício da carga.

— Ele (Odair) deveria coletar esse leite nos produtores em até 48 horas. Ele estava coletando leite de quatro dias. O leite não resiste por tanto tempo. Mas como alguns produtores são distantes e produzem pouco leite, ele deixava acumular para coletar mais. E aí pegava porcaria, leite ruim, leite totalmente impróprio para consumo. E depois ajustava — explica Rockenbach.


Foto: Diogo Zanatta, Especial / Agência RBS

O leite adulterado, segundo o promotor, chegava para as indústrias Piracanjuba, que tem mercado em Ijuí, Maravilha (SC) e Chapecó (SC), Tangará Foods, que atende até em São Paulo e Espírito Santo, e Aurora, empresa que fica em Santa Catarina. Uma rede complexa, sendo quase impossível saber até onde a fraude pode chegar.

Apesar de mais um esquema desvendado, o Ministério Público comemora com alívio a ausência de substâncias cancerígenas na oitava fase da Operação Leite Compen$ado, o que significa menor potencial nocivo ao consumidor.

— Desta vez não encontramos substâncias tão graves, cancerígenas. Tem água, soda, mas não identificamos substâncias muito graves no leite. Basicamente é água, soda e alguns outros produtos para mascarar a adulteração. Mesmo assim é leite impróprio — diz Rockenbach.

A Operação Leite Compen$ado começou em maio de 2013. A primeira ofensiva revelou um esquema que adulterou cerca de 100 milhões de litros de leite com ureia (que contém formol) e água. A fraude era realizada em postos de resfriamento, no caminho entre a propriedade rural e a indústria.

A partir daí, a ofensiva contra a ganância dos empresários não parou mais. Até o fim de 2013 foram realizadas outras duas etapas. Durante todo o ano passado, mais quatro fases. E agora, dois anos depois do início, a oitava parte da operação.

Contrapontos

Odair Melati, proprietário da Transportes Odair Ltda.
“Não sei de nada, não tenho nada a declarar, vamos ver lá na frente depois”.

Ariel Paulo Narzetti, presidente Cooperativa de Pequenos Agropecuaristas de Campinas do Sul (Coopasul)
“A gente tinha cancelado o serviço com a transportadora há dez dias. Fizemos nossa parte, mas infelizmente não deu tempo”.

Fonte: Zero Hora



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