Um a cada três professores da rede privada sofre de depressão



Pesquisa do Sinpro e Unisinos, que incluiu docentes de Santa Maria, revela as causas que levam à doença psíquica

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Há sete anos lecionando em um colégio particular de Santa Maria, um professor conviveu com o fantasma da demissão depois de ter entrado em conflito com os pais de um aluno em meados de 2016. No final do ano, o fantasma virou realidade.

Em 2012, depois de ter sido perseguida pela mãe de um aluno que foi retirado da sala de aula por três dias seguidos, a professora de outra escola privada entrou em laudo médico pode estresse, licença que se estende até hoje. Outro professor conta que se vê sem perspectiva, e a esperança é deixar a profissão.

Histórias como essas dão voz e rosto a uma pesquisa da Universidade Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) feita em parceria com o Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS). Para elaborar a cartilha Saúde/Adoecimento Mental dos Professores da Rede Privada de Ensino do Rio Grande do Sul, os pesquisadores ouviram 755 professores do Estado, incluindo Santa Maria (veja dados completos no quadro mais abaixo).

A pesquisa revelou que um a cada três professores da rede privada sofrerá de depressão em algum momento da carreira. Entre os entrevistados, 35,2% atestaram já estar em depressão.

Com base em dados de afastamentos de educadores do ensino privado pelo INSS, de 2009 a 2013, observa-se que a depressão é responsável por 12% dos casos.Professores que já tiveram experiência em escolas públicas contam que a dificuldade, nesse caso, inverte-se. Na iniciativa privada, há estrutura e pagamento de salário em dia. Já na rede pública, a falta de estrutura e os salários atrasados acabam causando doenças.

Foto: Arte / DSM

Abaixo, leia relatos dos professores e a opinião de especialistas.

Um mercado?

A simples busca por aprovação vem transformando os colégios em um grande mercado, constata a coordenadora da pós-graduação em Psicologia da Unisinos, Janine Monteiro, que participou da pesquisa:

– Os professores têm cada vez mais atividades para desenvolver, não costumam ganhar bem e enfrentam relações ruins com alunos e pais. Eles precisam fazer parte da gestão do ensino. Não só para ouvir, mas para serem ouvidos.

Um dos professores ouvidos pelo Diário se identifica com o que pensa a pesquisadora. Ele diz que o diretor é um gestor de recursos, que vê os professores como funcionários e, os pais e filhos, como clientes. E, assim, estabelece-se a relação.

– No final de ano, há o fechamento das notas. É o momento em que eu e meus colegas ficamos sem saber se permaneceremos empregados. O dinheiro rege a relação. A escola é uma empresa e há uma descrença no professor por parte de alguns pais que pagam (e não é pouco). Por isso, ditam as regras. Na perspectiva de perder um aluno, a direção vai tender para o lado do professor ou acatar a exigência dos pais? As reuniões pedagógicas que existem são para cumprir tabela – afirma o docente.

Dados preocupam sindicato

Presidente do Sindicato do Ensino Privado, Bruno Eizerik, diz que os dados da pesquisa preocupam:

– O trabalho já é estressante. E é do interesse das escolas que eles estejam em boas condições, já que isso se reflete no aluno.

Eizerik diz que o sindicato não tem ingerência nas escolas, mas há convenções onde são apresentadas propostas para melhorar a qualidade do serviço. Uma delas é contratar profissionais para prestar apoio aos professores, como psicólogos.

Os depoimentos de professores:

“Somos contratados por horas em sala de aula, mas precisamos dedicar tempo para planejá-las. E não somos pagos para isso. É preciso também elaborar e corrigir provas. A questão pedagógica fica em segundo plano no momento de lidar com o aluno. Eu tive problemas com um aluno. A mãe dele não gostou e foi até a escola entender o motivo. Eu expliquei. Ela conseguiu o meu número e ficou ligando diversas vezes. Chegou a ir a minha casa. Não tive apoio da direção. Foi difícil. A carga de trabalho, mais esse estresse fez com que eu buscasse ajuda médica. Me afastei”, professora de Santa Maria.

“Você estuda e se prepara para ser um bom profissional. Chega em sala de aula sabendo que não é simplesmente jogar conteúdo no quadro e explicar. Há de 20 a 30 pessoas na aula, e cada uma é diferente da outra. Você não pode colocar um aluno problemático para fora da sala, pois sabe que vai se incomodar com os pais, com a direção. Não importa que você esteja certo. Eu não posso afirmar com certeza que foi isso que aconteceu comigo, mas é a minha suspeita”, professor de Santa Maria.

“Não tem perspectiva. Era a profissão que eu idealizava. Ganhar a vida com aquilo que eu gosto de fazer. Fui frustrado. Não pretendo continuar. E não vejo saída, seja na rede privada ou pública. Os dois lados não dão condições. A única vantagem é você se sentir como educador. Saber que continua ali, na sala de aula, o processo de formação da criança ou do adolescente. Mas até esse objetivo, tão nobre, não é suficiente por conta das várias barreiras que a gente tem que superar. Quando falam que o professor não é valorizado, não é só da boca para fora. É uma verdade terrível”, professor de Santa Maria.

 

Fonte: Diário de Santa Maria







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