Dr. Dinler, o alegretense que integra pesquisas contra o câncer no Texas

O alegretense Dinler Amaral Antunes, nasceu em 1985, e até os seis anos viveu na Zona Rural, mais especificamente na região do Capivari, onde seu pai tinha uma lavoura de arroz. Atualmente trabalha na pesquIsa do câncer em colaboração com pesquisadores do Centro Oncológico MD Anderson da Universidade do Texas, referência mundial no assunto.

Aos sete anos, veio com a mãe e seu outro irmão para a cidade. Iniciou os estudos na Escola Demétrio Ribeiro. Durante a semana ficava na cidade, final de semana era na campanha, assim como os períodos de férias escolares. Não sendo proprietário de campo, o pai acabou mudando várias vezes para plantar em outras áreas, e assim Dinler foi conhecendo outros recantos do Alegrete, como o Pai-Passo e o Caverá.

Ao completar o ensino fundamental foi cursar o ensino médio no Emílio Zuñeda. Neste período a mãe também voltou a estudar, e concluiu o magistério e se formou em Pedagogia pela URCAMP, atualmente atua como professora e vice-diretora na escola Demétrio Ribeiro.

Dinler tinha o sonho de ser piloto da Força Aérea Brasileira, então ao concluir o ensino médio decidiu prestar prova para a Academia da Força Aérea (AFA), ao invés de prestar vestibular. Infelizmente as notas não foram boas o suficiente para ser selecionado nas primeiras duas tentativas (um ponto abaixo da média em Física), e o aumento do grau de astigmatismo impediu definitivamente de continuar tentando.

Forçado a reconsiderar o vestibular, depois de um curto período de cursinho preparatório em Santa Maria, foi finalmente aprovado para cursar Biomedicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Aluno da segunda turma de Biomedicina da UFRGS (vestibular de 2005), um curso com forte enfoque em pesquisa básica em saúde humana. No segundo ano de curso iniciou um estágio no Laboratório de Imunogenética, coordenado pelo professor Dr. José Artur Bogo Chies.

Dinler foi literalmente introduzido nas áreas da imunologia, da virologia e da bioinformática. Para complementar sua formação, também fez um estágio de oito meses no Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor (IPVDF), em Eldorado do Sul, trabalhando com virologia molecular sob orientação do professor Dr. Paulo Roehe.

Nesse período aprimorou o treinamento em técnicas de biologia molecular e participou de estudos para o desenvolvimento de uma vacina contra o Herpes vírus bovino. 

Mas foi a bioinformática que mais fascinou o alegretense. Conforme o nome sugere, a bioinformática se foca no uso de recursos computacionais para resolver problemas da biologia. Por exemplo, usando simulações computacionais elaboradas, é possível estudar as interações entre moléculas em um nível atômico, permitindo a realização de análises que são muito difíceis ou muito caras para se realizar no laboratório.

No caso dele, o interesse era estudar a estrutura de proteínas do sistema imunológico, que são responsáveis por montar nossa defesa contra os vírus, bem como analisar proteínas virais e revelar o mecanismo de ação de drogas antivirais. Depois de formado, Dinler foi imediatamente selecionado para realizar Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular da UFRGS.

Sob orientação do Dr. Gustavo Fioravanti Vieira (Biólogo também formado pela UFRGS, natural de Uruguaiana), o alegretense aprofundou o conhecimento nas pesquisas em bioinformática aplicada à imunologia. 

Com trabalhos apresentados em outros estados e em outros países, incluindo Chile, Escócia e Alemanha, sempre financiando pela universidade ou por agências de fomento do governo federal, teve merecido destaque.

No final do Doutorado, teve a oportunidade de realizar um pós-doutorado no  Departamento de Ciências da Computação da Rice University, em Houston (Texas, EUA). O nome da universidade – Rice, que significa arroz em inglês – é só uma feliz coincidência, sendo na verdade o sobrenome do responsável pela fundação da universidade (o advogado William Marsh Rice).

Outra coincidência benéfica foi o fato de que os mesmos mecanismos e proteínas envolvidos na imunidade contra vírus, que ele vinha estudando desde 2006, são também importantes na defesa contra o câncer. Assim, os estudos se tornaram diretamente aplicáveis para um novo e promissor campo da pesquisa em câncer, o das chamadas “imunoterapias”.

Durante o primeiro ano na Rice University, ele iniciou uma colaboração com um imunologista do MD Anderson, instituição vinculada à Universidade do Texas e que é referência mundial na pesquisa em câncer. Esta colaboração já rendeu três publicações científicas e atraiu financiamento de agências norte-americanas, incluindo o renomado NIH (Institutos Nacionais de Saúde, na sigla em inglês). Isso permitiu a extensão do pós-doutorado, que agora já dura mais de 3 anos.

Embora longe de casa, ainda possui vínculo com o Brasil e com o Rio Grande do Sul. Recentemente se tornou coordenador de uma associação de Pesquisadores e Universitários Brasileiros (PUB Houston), um grupo que se encontra mensalmente para discutir ciência, mas que também envolve confraternização com comida brasileira e chimarrão.

Dinler, regularmente escreve para o Blog da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBlogI). Recebeu alunos brasileiros fazendo estágio e participou de bancas de mestrado e doutorado no Brasil. Colabora com ex-colegas/orientadores da UFRGS, os quais foram co-autores de uma das suas publicações mais recentes. Sobre as pesquisas é categórico. “O caminho é longo, e continuamos em frente um passo de cada vez”, cometa.

O alegretense revela que o mais importante é o exemplo dos seus pais. “A disposição do meu pai, trabalhando até hoje na lavoura de arroz, sem fazer distinção para domingos e feriados, continua a me dar motivação para estudar e trabalhar inúmeras madrugadas e finais de semana. A dedicação da minha mãe, voltando a estudar depois de anos como dona de casa, e conciliando uma faculdade noturna com o cuidado dos dois filhos, continua a me dar a tranquilidade para perseverar e buscar um objetivo a longo prazo”, persevera Dinler, o alegretense que estuda as imunoterapias contra o câncer.

Júlio Cesar Santos                                      Fotos: Acervo Pessoal

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2 Comentários

  1. Que espetáculo ver que essa gurizada ganha asas através da educação e da pesquisa, e podem fazer parte de soluções e descobertas que vão interferir positivamente na qualidade de vida das pessoas!! Parabéns aos seus pais e a ele pelo empenho!

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