A solidão do abandono; a dor dos pacientes que sofrem com a ausência dos familiares na Santa Casa

Nos hospitais, com frequência surgem circunstâncias sociais adversas que necessitam e justificam a intervenção de um assistente social. Neste dia 15, a data é comemorada por todos os profissionais da área.

Em Alegrete, a reportagem conversou com as assistentes sociais, Tânia Rosso Zinelli e Grazielli Fernandes Diniz. As duas atuam diariamente nas demandas da Santa Casa.

De todo trabalho realizado, mais uma vez, o que se destaca é o abandono de pacientes, principalmente idosos e do sexo masculino. De acordo com Tânia isto, na maioria das vezes está relacionado ao fato do contexto familiar e também porque em muitos casos os pacientes são pessoas com problemas de alcoolismo.

“Cada vez mais esse número cresce, as pessoas ficam mais independentes quando jovens, os filhos estão se afastando mais, boa parte vai para outra cidade em busca de novas oportunidades de trabalho. São inúmeras as histórias que acompanhamos , até mesmo porque os pais não foram “bons pais”, não deram carinho, atenção e amor. Muitas vezes isso é muito difícil de ser revertido com o passar do tempo” – comentou Grazielli.

Outra situação que elas mencionam é que muitas vezes as próprias pessoas se afastam dos familiares quando são mais jovens e depois são encontrados em forma sub-humanas. Um exemplo foi de um senhor de 71 anos, regatado pela Brigada Militar, no último mês. As assistentes disseram que a família já estava buscando colocá-lo em um lar permanente e foi isso que aconteceu, assim que ele chegou no hospital, os filhos foram comunicados e depois da alta, ele foi levado a um Lar para idosos.

A assistente social destacou que atualmente são dois casos de abandono de idosos. “As famílias estão transferindo a responsabilidade para o hospital. Mas, estamos tentando mostrar que o carinho e o cuidado, também fazem parte do tratamento para uma recuperação rápida. A família é parte fundamental” – destaca.

Tania Zinelli e Grazielli Diniz

Em todas as situações foi constatado que o abandono se deve muito pela falta de contato entre pais(idosos) e filhos. O rompimento de vínculos é muito grande.

O Estatuto do Idoso foi criado em 2003, para “assegurar ao idoso”, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, lazer, cultura, liberdade respeito, entre outros. A lei determina que todo idoso “goze de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana”.

Tania Zinelli ressalta que, apesar da clara determinação assegurada no estatuto, nem sempre isso acontece e esta realidade é vivenciada em muitos momentos na rotina do dia-a-dia do hospital.

No momento em que um idoso chega, tanto na UPA como na Santa Casa, em situação de vulnerabilidade, a enfermagem comunica o Serviço Social. Então é feito o acolhimento e avaliação de risco social. É preenchido um cadastro e as assistentes sociais buscam saber um pouco da realidade de cada pessoa, se tem filhos ou alguém que cuida do cartão benefício, pois essa pessoa é quem pode ser indicada como responsável.

A questão do cartão benefício é muito delicada, pois há casos que estão com terceiros, como o dono do mercadinho, o vizinho, o sobrinho(a), irmãos, netos e os valores repassados nem sempre atendem às necessidades do idoso. Nestes casos, o Conselho do Idoso é imediatamente comunicado e alguns casos o Ministério Público.

Paciente sem acompanhante

As assistentes sociais deixam claro que nenhuma pessoa que chegar em situação de vulnerabilidade, independente das comorbidades, até as mais graves, como casos de UTI, ficam sem atendimento. A enfermagem vai se desdobrar para realizar o melhor atendimento, mas não tem como disponibilizar um profissional para ficar o tempo todo. Isso se torna muito mais grave em pacientes agitados, àqueles que fazem uso de medicamentos mais fortes e o risco de quedas são mais propícios a acontecer, assim como os atendimentos que necessitam remoção fora do domicílio. Isto denota um trabalho muito intenso, pois no caso de transferência, principalmente, o outro município não aceita a pessoa sem um acompanhante.

“Há casos em que o familiar, vizinho ou amigo vem até à Santa Casa e deixa o contato errado ou até mesmo tem o receio de vir conversar. Esse contato é de suma importância até para que possamos agilizar e ajudar o paciente, pois há detalhes da vida dele que pode ser o grande quebra cabeça de tudo. E, se ele não tiver para onde ir, precisamos encaminhá-lo para um Lar” citou.

Caso não haja sucesso na busca, é acionado o CREAS, ( Centro de Referência Especializada), onde o atendimento faz toda diferença e o idoso é encaminhado ao Asilo.

Em caso de óbito, é feito o contato com a secretaria de Assistência Social e o pedido do Benefício Eventual da Política de Assistência Social – Auxílio Funeral.

As assistentes sociais argumentam que a equipe multidisciplinar da Santa Casa não mede esforços e está sempre buscando fazer a sua parte, amenizando um pouco a dor e o sofrimento de cada idoso.

Também acrescentaram que os casos mais recorrentes são de pessoas acima de 60 anos, porém, existe muitos adultos que na maioria são etilistas e adolescentes dependentes químicos que são rejeitados ou abandonados pela família devido às condições de vida. Tânia pondera que avaliando essa situação percebe-se que essas pessoas também serão abandonados em idades mais avançadas e pela quantidade de dependentes químicos é uma situação preocupante para o futuro.

Mesmo com todo esse cenário de desafios, as duas assistentes sociais são incansáveis na busca de uma solução para todas as adversidades. O trabalho realizado na Santa Casa é uma referência.

Flaviane Antolini Favero

Compartilhe
  • 468
  •  
  •  
  •  
  •  
    468
    Shares

Seja o primeiro a comentar

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será divulgado.


*