Casamento coletivo em cemitério terá até união de ex-freira com um quase padre

Celebração com 10 casais ocorrerá sob figueira centenária, na mesma área em que também fica um crematório em Viamão

Um local fundamentalmente criado para a despedida celebrará a vida neste sábado (25): o crematório e cemitério Saint Hilaire, em Viamão, será palco de um casamento coletivo para 20 pessoas. Entre as pessoas que celebrarão a união, há uma ex-freira que conheceu o amor ainda no seminário, um soldado que não dispensará a farda na cerimônia, e um gaudério com bota, pilcha e lenço tradicionalista.

Mas nenhum, talvez, se sentirá tão “em casa” quanto Diones Silva de Araújo, 37 anos. Ele é funcionário do grupo Cortel, que administra o local e promove o evento.

– Encaro o cemitério com outros olhos, sem aquele estereótipo. Maior surpresa foi para minha noiva, que ficou até um pouco espantada – relembra.

Araújo está há 15 anos com a noiva, a recepcionista Daniela Oliveira, 32 anos. No civil, eles já são casados, mas as crenças distintas sempre os impediram de oficializar a união perante Deus.

– Ela é evangélica e eu, católico. Aqui a proposta é outra, não tem o apego à religião – complementa.

Dos estudos no seminário para o casamento no cemitério

Um amor “proibido” também terá o cemitério como palco para um desfecho feliz. Ademir Machado, 31 anos, e Dalva Baumgartner, 40, se conheceram no seminário, há mais de dez anos, quando ela estudava para ser freira e ele, para ser padre. A irmã continuou os estudos e foi freira até 2016.

– O amor por ela me motivou a desistir. Ela continuou, mas saiu para ficarmos juntos, o que não era possível enquanto estávamos lá – relembra o franciscano, que abandonou a carreira após já estar formado em filosofia, faltando apenas a especialização em teologia para assumir a batina de padre.

Coordenador ecumênico do evento, Cláudio Júnior explica que a diversidade se dará até mesmo com pessoas que não seguem qualquer doutrina. Porta voz de Deus na união, como se define, afirma que não tem conhecimento de cerimônia coletiva em um cemitério, e saúda a iniciativa:

– Temos que desmistificar essa ideia de que cemitério é local de tristeza, com clima pesado.

Ronaldo Bernardi / Agencia RBS
Religioso se diz lisonjeado por participar de um casamento em situação tão inusitadaRonaldo Bernardi / Agencia RBS

Com a expectativa de quem parece estar realizando o primeiro matrimônio, o religioso se diz lisonjeado por participar de uma situação tão inusitada, momento inédito na carreira. E refuta a alcunha de comandante do casamento.

– Quem casa é Deus. Eu sou apenas uma testemunha, um porta voz, o instrumento do rito de celebração que os une.

Bióloga e jornalista querem registrar união

A bióloga Nicole Veto, 34 anos, e a jornalista Francine Formento, 36, casaram no civil no ano passado, e enxergam na celebração no cemitério uma chance de ter os registros, na memória e em fotos, da união.

– No civil são só cinco minutos, assina e deu. Agora temos oportunidade de ter alguém que vai registrar, além de fazer a benção – afirma Francine.

Ronaldo Bernardi / Agencia RBS
Nicole Veto e Francine Formento já são casadas no civil, mas agora terão uma festa para registrarRonaldo Bernardi / Agencia RBS

Nicole complementa a fala, adicionando que o fato de o ritual não se restringir a uma única religião fez com que elas não tivessem dúvida de aceitar o convite.

– O culto ecumênico é bem diverso, com casais diversos. Aceita a todos, não é aquela coisa de uma religião só. E além disso, aqui a gente se sente em paz. Não tem aquela característica mórbida de outros cemitérios.

As duas dispensarão os vestidos de noiva, pois, segundo dizem, não combina com a personalidade delas.

– Uma roupa mais sóbria, mais social. E uma roupinha de manga, pois vai estar frio – alerta a bióloga.

Tradicionalismo para um casamento não tradicional

Ronaldo Bernardi / Agencia RBS
Jair vai usar pilcha no casamento com MariseteRonaldo Bernardi / Agencia RBS

Por falar em roupa, o instalador hidráulico Jair Bandeira de Souza, 52 anos, optou pela vestimenta gaúcha ao invés do terno e gravata.

– Bota, bombacha, guaiaca, chapéu ou boina – lista, ao contar que os amigos do trabalho riram quando contou que irá casar em um local tão inusitado.

A esposa, Marisete Gonçalves Padilha Bandeira de Souza, 48 anos, vai realizar um antigo sonho.

– Vou casar de noiva. E estou ansiosa, como toda noiva – admite, com um sorriso nervoso.

Os dois estão juntos há 19 anos, e o desejo de festejar a união acabou ficando em segundo plano, principalmente pelo alto custo.

Administração percorreu o mundo atrás de exemplos de como aproveitar espaço

Às margens da RS-040, o parque tem 15 hectares, com um bosque de árvores nativas. A bênção ocorrerá sob uma figueira centenária, com vista para o lago. Após, um brinde precede a valsa dos noivos, que encerra a celebração. Fotógrafos, decoradores e toda a estrutura é oferecida sem custo aos casais.

Com uma faixa que anuncia o ato – aberto ao público a partir das 11h -, o cemitério deverá receber 200 convidados, além, obviamente, dos inúmeros curiosos que devem comparecer. Priorizando pessoas de baixa renda, ou que não tiveram oportunidades anteriores de subir ao altar, a organização afirma ter feito até mesmo lista de espera após grande procura de interessados.

– Como temos muito cuidado em manter o respeito ao local, que tem muitas pessoas se despedindo ou visitando os familiares enterrados, limitamos a dez casais. Mas pensamos em repetir, quem sabe uma vez ao ano – conta a diretora do Grupo Cortel, Renata Azevedo Flores, ao contar que a empresa visitou para diversos cemitérios pelo mundo a fim de estudar opções para uso do local além do tradicional.

Fonte: Gaúcha/ZH

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