‘Eu me desesperei e achei que tinha caído meu rosto’, diz vítima de ataque com líquido ácido em Porto Alegre

Bruna Machado Maia, de 27 anos, foi atacada na noite de quarta-feira (19), quando caminhava próximo de casa, no bairro Nonoai. Ela teve o rosto e parte do braço queimados.

Uma das vítimas atacadas por um homem que jogou um líquido semelhante a ácido teve queimaduras de segundo grau no rosto e em partes do braço. Bruna Machado Maia, de 27 anos, caminhava próximo de casa, na Rua Santa Flora, no bairro Nonoai, em Porto Alegre, na noite de quarta-feira (19), quando o homem se aproximou numa bicicleta.

“Quando eu olhei meu casaco eu me desesperei, já achei que tinha caído meu rosto, já tinha me queimado, feito buraco”.

Num primeiro momento, a mulher pensou que estava sendo assaltada.

“Esperou eu passar para se aproximar. Ele estava de bicicleta preta. Ele era bem branco, magro, sem barba, sem bigode, sem nada. Não vi cabelo por causa do capuz. Ele estava com um moletom todo branco, calça escura e sapato escuro”.

“Ele falou ‘olha a água’. No reflexo eu botei a mão e consegui proteger só meu olho, mas o rosto em si, pegou”.

Os casos estão sendo investigados pela 13ª Delegacia de Polícia Civil de Porto Alegre. Cinco ocorrências por lesão corporal foram registradas por quatro mulheres e um homem até o fim da tarde desta sexta-feira (21).

O delegado Luciano Coelho acredita que trate-se de ácido. Os ataques aconteceram no bairros Nonoai e Aberta dos Morros.

De acordo com informações da Polícia Civil, foram ouvidas duas pessoas e outras três devem prestar depoimento na segunda-feira (24). O delegado busca imagens das câmeras de segurança para identificar o suspeito.

Uma das vítimas relatou que o homem estava num carro e que havia uma segunda pessoa no veículo. A polícia ainda não confirmou essa informação.

“Não temos identificação do veículo nem do indivíduo, mas com certeza é a mesma pessoa [que joga o líquido]”, relata o delegado.

“Achei que ele estava me molhando de sacanagem, coisa de moleque, mas eu vi que dois segundos depois aquilo começou a queimar e eu saí gritando e correndo, pedindo socorro”, disse Bruna.

Com a ajuda de uma vizinha, que buscou na internet orientações sobre como proceder em situações de queimadura, a dona de casa iniciou os primeiros socorros.

A mulher foi atendida no por uma médica no Pronto Atendimento Cruzeiro do Sul, depois de tentar por uma hora e meia que um carro de aplicativo a levasse até o posto.

“Não queria vir porque era zona de risco. Quando eu cheguei lá, passei na frente de todo mundo, eles estavam com medo, não sabiam se eu tinha ficado cega, mas a médica disse ‘não se preocupa, vai secar, vai cair e vir uma pele nova’ e meu deu uma pomada. Quanto mais eu falo, mais me dói o rosto porque força o músculo”.

Na delegacia, ao fazer a ocorrência, ela descobriu que o homem havia feito outras vítimas.

“Eu não queria falar com ninguém, não queria ver ninguém, não queria que ninguém visse meu rosto, estava com medo que me olhassem com outros olhos. Mulher, né, isso afeta nossa vaidade, nossa beleza, a nossa vontade de se sentir bonita. Meu marido conversou comigo, me deu palavras de conforto”.

Outros ataques

Somente na manhã desta sexta-feira (21), três mulheres e um homem procuraram a polícia. Entre elas, Tássia Steinmetz, 33 anos, atacada por volta das 7h20. Ao G1, ela disse que não conseguiu ver o rosto do homem que jogou o líquido.

“Estava indo me exercitar e estava com fones de ouvido. Acho que ele me atacou pelas costas, então não vi nada. Na hora não entendi o que aconteceu. Fiquei com muita dor e desnorteada”, relatou.

Tássia não conseguiu ver o rosto do agressor. — Foto: Arquivo pessoal

Tássia não conseguiu ver o rosto do agressor. — Foto: Arquivo pessoal

‘Fiquei apavorada’, diz vítima

Outra vítima atacada na manhã de sexta é Gladis Nievinski, de 48 anos. Ela conta que ia ao trabalho, a pé, quando percebeu que um carro branco havia estacionado, no lado oposto da calçada. “Pensei ‘alguém chegou de Uber’. Uns 50 metros depois, percebi que esse carro veio para o meu lado”, relata.

“Pensei ‘não vou olhar, ele vai falar uma gracinha’. Nisso, senti algo no rosto. Pensei ‘sacana, cuspiu em mim’. Passei a mão e começou a arder”, contou. Seu pescoço e uma parte do rosto foram atingidos pelo líquido, transparente, sem cheiro e com aspecto pegajoso, conforme ela descreve. A substância pegou também em seu casaco. “Ficou estraçalhado”, comenta.

Gladis não consegue identificar o carro, mas diz que viu somente uma pessoa. O carro saiu sem acelerar. Ela procurou atendimento em um posto de saúde. “Soube que não era o primeiro caso. O médico disse que provavelmente era ácido, ou algo abrasivo, soda base”, conta.

O médico limpou a área e receitou medicamentos para dor e uma pomada para a pele. Gladis teve queimadura de terceiro grau, e vai voltar na próxima semana para avaliar o ferimento. “Sinto ardor. Não tive como trabalhar”, lamenta.

A notícia se espalhou pelo bairro e vizinhos passaram a pendurar cartazes nos postes, alertando do perigo. “Fiquei apavorada, mas agora estou um pouco mais calma”, diz. Gladis já sabia do primeiro caso, registrado na quarta, mas garante que jamais imaginou que seria vítima do ataque. “A gente sempre tem medo da violência, enfim, tu imagina de tudo, mas nunca comigo”, lamenta.

Vítima sofreu queimaduras em parte do rosto e pescoço após ataque com líquido corrosivo em Porto Alegre  — Foto: Arquivo pessoal

Vítima sofreu queimaduras em parte do rosto e pescoço após ataque com líquido corrosivo em Porto Alegre — Foto: Arquivo pessoal

Fonte: G1

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