Luis Felipe, a saga de um pequeno guerreiro que lutou bravamente para viver

“Não é a ordem natural da vida. Pedia para que Deus que me levasse no lugar dele, perdi a razão de viver. Meu coração está lá com meu filho. Todos os dias eu ligo o automático, pois sei que em algum momento alguém pode precisar de mim. Mas tudo, ainda, é muito doloroso e difícil” – definiu Mônica dos Santos Morales.

A descrição é de uma mãe que a cada dia luta para superar a perda do filho, uma criança com 11 anos. Há 11 meses e 27 dias, a vida do sonhador Luis Felipe Morales Barboza foi ceifada por uma hidrocefalia. Uma criança ativa que adorava realizar várias atividades, era inteligente e participativo. Luis fazia ballet, jazz, judô, tocava violão e sonhava em ser bombeiro ou policial militar. “Quero salvar vidas, ajudar os outros”, sempre comentava esse desejo à mãe.

Mônica, muito emocionada aceitou falar da perda do filho. Acredito que é uma forma de homenageá-lo já que está próximo do primeiro ano. Eternizar de alguma outra forma tudo o que ele representou enquanto aqui esteve. Meu filho estava à frente da idade cronológica, ele sempre se sobressaiu”- comentou.

(Luis e Mônica)

O início

Mônica conta que em maio de 2017 o filho começou a queixar-se de dores de cabeça e nas costas. Foram inúmeras consultas, vários medicamentos e diagnósticos, porém , nada com resultado efetivo. No início de junho ela conseguiu uma internação devido à necessidade de uma tomografia com urgência. Foi então que recebeu a notícia de que Luis estava com hidrocefalia e necessitava com urgência de um cirurgia.

Cirurgia

Transferidos para Uruguaiana, ele realizou o primeiro procedimento, assim que chegou na Santa Casa. A rejeição da primeira válvula levou ao diagnóstico de uma meningite. Foi necessária uma outra intervenção e foi colocado um dreno. Passaram alguns dias e mais uma cirurgia. A terceira deu tudo certo e 15 dias depois eles já retornavam para Alegrete. No dia da despedida, uma médica postou: Luis Felipe meu paciente num 1. Pequeno em estatura mas gigante em valentia, paciência e fé. Enfim, chegou o dia de ir pra casa. Vou sentir saudades mas estou muito feliz pela sua recuperação e por você voltar à sua vida normal, “pros”seus gatinhos e pra todos os que te amam!! Você é especial!!! Continue assim!!! A tia te ama!!!! Bjss!!! Que Papai do céu continue te abençoando e guardando!! – Patricia De Quadros Patyquadros.

O retorno

Em casa, já com fisioterapia após mais de 40 dias internado, a maior parte desse tempo sem poder se mexer devido ao dreno, Luis estava com uma rotina tranquila. A orientação era não bater a cabeça, o que poderia resultar em problemas na válvula. Ansioso para retornar à rotina de ir à escola e fazer às atividades que mais gostava, o menino contava nos dedos os dias que faltavam. Cerca de um mês depois de ter retornado, o médico havia sinalizado que ele iria retornar ao cotidiano.

A regressão

No dia 21 de julho de 2017 ao chegar em casa, após o trabalho, Mônica percebeu que ele estava um pouco abatido. Luis comentou que estava com uma leve dor de cabeça. Imediatamente, a mãe o levou à UPA. Como já conhecia o caso, o médico o encaminhou à Santa Casa e já ficou internado. Na avaliação da pediatra, ele precisava com urgência de uma tomografia, porém, o aparelho em Alegrete estava com problemas, inoperante. Foi então, que a médica conseguiu transferência para Uruguaiana. Na madrugada, mãe e filho já se deslocavam para o município vizinho. Mas ao chegarem lá a grande surpresa e o desespero para Mônica: o aparelho de tomografia, também, estava com problemas e não teria como realizar o exame. Ao mesmo tempo a orientação do médico foi de aguardar e avaliá-lo por um tempo.

(Luis , Mônica e a avó)

A morte

“Eu precisava ser forte, mesmo diante de todas as dificuldades, medos, receios e o pavor de perder meu filho, na frente dele eu tinha que ser forte” – disse Mônica.

“Como já não poderíamos retornar no mesmo dia, até porque teríamos que tentar uma outra cidade. Ficamos no hospital. Por volta das 17h chegou o jantar e eu o alimentei. Lembro muito bem o que ele comeu naquele dia, um pouco de sopa e um pedaço de frango. Ele pediu para que eu deitasse ao seu lado na cama. Ficamos juntos, deitados lado a lado. Percebi que por volta das 19h ele ficou inquieto, eu pressenti que ele havia piorado e chamei as enfermeiras. Tiraram ele do quarto para outra sala, segundo a enfermeira, iriam realizar uma outra avaliação, um outro procedimento. Fiquei olhando para o meu filho, vi que enquanto eles o colocavam na cama, antes mesmo de qualquer exame ser feito, ele deu um gemido e percebi que ele parou de respirar. Nesse momento fui retirada da sala e só recebi a notícia de que ele não tinha resistido. Meu mundo desabou. ” – narrou.

A história de vida de Luis

Natural de Cachoeira do Sul, onde foi sepultado, Luis Felipe, mudou-se para Alegrete aos três anos, com a mãe. Ele fez amizades e era uma criança saudável, até o diagnóstico da hidrocefalia. Apaixonado por judô, dança e animais, sempre se destacou em todas às atividades e cativava às pessoas por onde passava. Com sonhos como qualquer criança e desejos, Mônica revela que sua vida era em razão do filho, assim como o trabalho sempre foi um ponto crucial para conseguir ajudar e auxiliar de forma positiva a criação do filho. Separada do pai dele há sete anos, ela era o esteio da família.  Neto e filho único, Luis Felipe, sempre foi compreensivo quando não poderia ter algum brinquedo ou qualquer outro produto. “Nunca ouvi uma queixa do meu filho, não tinha quem não gostasse dele. Era um menino estudioso, estava no 6° ano do ensino fundamental na escola Demétrio Ribeiro. Os colegas até hoje postam mensagens, lembro que logo após o enterro, como não foi aqui, muitos colocaram que estavam o aguardando para juntos concluírem trabalhos, entre outros projetos” – citou.

Ele fazia aniversário em 23 de fevereiro. Entre a descoberta da doença no final de maio e a  sua morte, transcorreu pouco mais de 50 dias, tudo foi muito rápido. Mônica acredita que o filho não merecia sofrer, era muito especial e sua passagem por aqui foi para dar muito amor àqueles que conviveram com ele e para deixar ensinamentos. Segundo ela, a mentalidade e a inteligencia do filho estava à frente do seu tempo, idade. “Lembro que na primeira internação em Uruguaiana, cerca de 40 dias ele ficou praticamente sem se movimentar pela válvula e depois em razão do dreno. Nunca ouvi meu filho reclamar, mesmo nos seus piores dias sempre que um enfermeiro entrava no quarto, ele respondia com um sorriso, um bom dia ou boa tarde. Houve vezes que não teve forças para abrir os olhos, mas não deixava de desejar aos profissionais o que ele tinha condições naquele momento e sempre teve reciprocidade. Recordo de um dia ele ter que receber mais de 50 picadas na tentativa de encontrarem uma veia, no final estava difícil. Apesar da dor que ele sentia, sempre se manteve firme e foi um grande lutador. Observava o quando era difícil cada vez que as enfermeiras diziam que tinha escapado a veia e teriam que tentar outra. Porém, jamais ouviram qualquer grosseira ou tiveram dificuldades. Ele chorava muito, mas sempre com um sorriso, queria mostrar que era forte” – narrou Mônica.

Em alguns momentos da entrevista, a emoção era mais forte, ela pedia desculpas por não conseguir segurar as lágrimas, mas destacava que o filho merecia essa homenagem.Questionada de como é a superação de uma perda tão difícil, Mônica, é taxativa: ainda não consegui me libertar de muitas coisas, nem mesmo de algumas roupas e brinquedos. A sensação é que meu coração ficou enterrado com ele, perdi a razão de viver, tudo parece não ter mais sentido. Minha vida era meu filho, a razão de todas as minhas lutas, sempre foi ele. Mas, ao mesmo tempo, eu busco forças e tenho auxílio da minha família e do meu namorado para encontrar uma forma de amenizar tudo isso.  Em vários momentos pedia Deus que se alguém tivesse que partir, que fosse eu e não ele. Houve um período em que eu perdi minha fé, depois que Luis faleceu, mas com o tempo estou resgatando a fé e a força para me manter viva.Estou aprendendo a viver novamente, mas a saudade e a dor são diárias. Sei que fiz o possível, até mesmo quando houve um questionamento sobre as vacinas e eu apresentei a carteira dele toda completa. Luis era minha vida eu não iria falhar com ele.

O motivo da hidrocefalia e a causa da morte, nunca soube, nunca houve uma explicação. Apenas uma peregrinação durante um mês em médicos que não tinham um diagnóstico preciso e medicavam e mandavam pra casa. Depois, uma viagem quando ele disse que estava com dor de cabeça e fui levada para uma cidade onde não havia o essencial o aparelho para fazer o exame, assim como aqui estava queimado. Tudo isso, eu acredito que poderia ter sido diferente, contudo, não culpo ninguém, não quero processar ninguém, por que se houve negligências sei que essas pessoas terão seus acertos com suas consciências.

Tenho comigo às lembranças de tudo que vivi de intenso e verdadeiro, porque o amor…esse nunca morre, fica eternizado em nossos corações. Amei e amo meu filho e sei o quanto ele me amava, éramos tudo um para o outro, fomos parceiros, amigos e cúmplices. Eu fui forte por ele e ao mesmo tempo percebia o quanto ele era forte por mim. Luis Felipe sempre foi corajoso” – finalizou.

No próximo dia 22 de julho vai completar um ano da perda do filho. Mônica agradece a todos que sempre estiveram perto, professores e colegas, amigos do filho que sempre estão eternizando sua história nas postagens que faz. Sabe que a luta diária ainda é muito longa, mas a certeza de que um dia poderá reencontrar o filho a está  mantendo firme.

 

Flaviane Favero

Compartilhar

2 Comentários

  1. É emocionante está história e ao mesmo tempo homenagem parao Luiz Felipe, não consegui ler até o final. Eu me emocionei com tudo isto que li! Só posso dizer para os pais, muita força e c. Agarrem mais ainda com Deus porque é lá com ele que o Luis Felipe está neste momento!
    É duro , é triste, é o fim do mundo sem os nossos filhos por perto ,muito difícil dizer algo pra esta família em qualquer momento agora! A única coisa que posso dizer é que orem bastante ,por ele e por vcs!

  2. História emocionante de carinho, dedicação e coragem. tenho certeza de que este anjo iluminado está em um lugar muito melhor e olhando por sua mãe que tanto o amou. Tenha certeza de que um dia vcs terão um reencontro e desta vez será eterno.

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será divulgado.


*