Paulo Amaral, um dos mais influentes agentes culturais do RS

Paulo Amaral é Professor de História, Especialista em Filosofia e Sociologia. Mestrando em Educação com enfoque no Cinema na UFSM – Universidade Federal de Santa Maria.  Educador da Escola Dr. Romário Araújo de Oliveira – Ciep. Agente de Cultura e Lazer do Sesc Alegrete. Colaborador do Ponto de Cultura Coletivo Multicultural de Alegrete, ator, palhaço e roteirista, pai do Bento Quintana do Amaral e companheiro da Tatiane Quintana, também atriz e contadora de histórias.

Através de sua atuação no Sesc, é responsável pelos projetos de cultura, Circuito Palco Giratório, Rio Grande no Palco, Sonora Brasil, Sesc Música, Teatro a Mil, Arte da Palavra, Sesc Mais Leitura, Cine Sesc, dentre outros. No Coletivo, colabora com as sessões de cinema semanais, oficinas de artes visuais, cinema e literatura, além de dirigir o espetáculo “Celebração noturna para Edgar Allan Poe”.

Como professor, já produziu, juntamente com os alunos, curtas metragens e documentários, destacando, “Os outros”, “Ciro Anhaia Dias”, “Generosa”, “Mãos Dadas”, dentre outros. É um dos colaboradores do projeto “Livros Livres”.

Amaral é um dos mais influentes programadores culturais do estado, além de fomentador de ações com enfoque educativo e cultural. Um dos fundadores da Associação Cultural Mensageiros, instituição sócio cultural que neste ano de 2018, completa 20 anos.

O Ponto de Cultura Coletivo Multicultural vem na sequencia com suas maratonas de cinema, oficinas, apoios em atividades nas escolas, montagens teatrais, produção de filmes e outras ações. Destaco ainda a Biblioteca Pública Mário Quintana, as Escolas de Dança Ballerina, Danniele Pinheiro e Coppélia, Agência Fábula / Vulpi, Unipampa, Danç’Arte, Vereador Paulo Antônio Berquó, UERGS, Aldeia do Rock, ONG Amoras, Brechó Tô de Chica, AFAC, União Operária 1º de Maio, Diretoria de Cultura, dentre tantas outras instituições comprometidas com a Cultura local.

Amaral é um dos mais influentes programadores culturais do estado, além de fomentador de ações com enfoque educativo e cultural. A reportagem conferiu o trabalho e a rotina do alegretense. Confira o bate-papo:

 

Portal: A frente do Coletivo Multicultural, tu tem proporcionado muitas oficinas e apresentações. Como é elaborado este trabalho ?

Paulo: O Ponto de Cultura Coletivo Multicultural de Alegrete é um projeto gestado desde o ano de 2015 pela Associação Cultural Mensageiros, instituição sócio-cultural fundada em 1998. O Coletivo faz parte da rede de 83 pontos de cultura do estado que foram criados através de edital de 2013. Desde 2016 o Governo Federal deixou de fazer os repasses financeiros para os pontos e o coletivo tem se mantido através do apoio de empresas e pessoas. As oficinas são oferecidas por profissionais voluntários, nas linguagens de cinema, teatro, literatura e artes visuais. Pensamos sempre em atingir todos os públicos, desde crianças a idosos. E entendemos que é fundamental sistematizar essas ações, ou seja, oferecer com regularidade a fim de criar o hábito para a fruição artística.

Portal: Alegrete é diversificada na área cultural. Como tu analisa este cenário atualmente?

Paulo: Nosso município cresceu muito em termos de projetos sistemáticos no campo da Cultura. E são projetos gestados por diversas instituições que atendem, principalmente a linguagem literária. Sem dúvida, o Sesc, no meu entendimento é o grande fomentador cultural no município, é assim em termos de estado e Brasil. O Sesc fortalece redes, estabelece parcerias, fomenta a produção artística local e organiza circuitos de teatro, circo, dança, cinema, literatura etc. E focando sempre nos aspectos educativos, sociais e estéticos. Alegrete se beneficia desses projetos há quase dez anos. Projetos importantes de abrangência nacional, como Circuito Palco Giratório, Sonora Brasil, Arte da Palavra, além dos regionais, como Rio Grande no Palco, Sesc Música, Cine Sesc, Sesc mais leitura, Teatro a Mil, são realidades que acontecem no município a muito tempo.

Portal: Além de professor, tu é um artista nato. Encena peças teatrais, o palhaço de hospital. De onde vem este dom ?

Paulo: Desde pequeno eu sempre me interessei por teatro. Eu diria que desde os 6 anos de idade, quando encenei pela primeira vez um peça baseada na Escolinha do Professor Raimundo, quando estava na primeira série do Colégio Emílio Zuneda. Em 1998, juntamente com outr@s companheir@s, fundamos o Grupo Mensageiros, que por sua vez deu origem a Associação Cultural Mensageiros, que é a instituição mantenedora do Coletivo Multicultural. Particularmente não acredito muito em dom e sim em pré-disposição para determinadas coisas. E essa pré-disposição precisa vir acompanhada de estudo, prática e reflexão. É assim que por 20 anos venho escrevendo, atuando e produzindo teatro, cinema, literatura etc.

Portal: Qual o teu sonho na área cultural para Alegrete que ainda não conseguiste realizar ?

Paulo: Gostaria que Alegrete dispusesse de uma sala de teatro equipada e uma sala de cinema. E que houvesse, por parte do poder público, incentivos em forma de editais para que pequenos grupos locais pudessem colocar m prática seus projetos.

Portal: Temos muitos talentos locais. Na área cultural não é diferente. Qual é a maior dificuldade em trabalhar com cultura em Alegrete ?

Paulo: A maior dificuldade para o desenvolvimento de ações qualitativas no campo artístico são os incentivos financeiros. Cultura é investimento, não gasto. E, claro, o entendimento de que a Cultura, em seus aspectos antropológicos, sociais e artísticos, são fundamentais para o desenvolvimento da sociedade.

 Portal: Tens articulados muito shows no município. Se pudesse presentear a cidade com um espetáculo de final de ano qual seria ?

Paulo: Muitas atrações que   desejei oferecer ao município consegui realizar. O Sesc tem nos proporcionado isso. A visão do Sesc em relação ao poder da Cultura é fundamental para a construção que estamos realizando durante tantos anos. Ainda teremos algumas atrações em dezembro. Enfim, respeitando a objetividade da tua pergunta, talvez uma orquestra ao ar livre. Seria bonito.

Portal: Com tanto engajamento na cultural local. Já pensaste a falta que faz a cidade não possuir um cinema e nem um teatro municipal ?

Paulo: O Centro Cultural Adão Ortiz Houayek vem cumprindo esse papel, de maneira eficaz, em relação ao teatro. Mesmo sem estrutura de sonorização e iluminação, o espaço tem se constituído como o nosso teatro municipal. No momento passa por adequações que serão importantes para as ações dos anos seguintes.

O que lamento muito foi o rompimento do poder público com a excelente programação cultural que era desenvolvida no CC, desde 2016, com contações de histórias, cinema, exposições, projetos com escolas, gincanas culturais etc. Foi um período de efervescência artística importante que atendia principalmente o público de estudantes.

Em relação ao cinema, acredito que hoje Alegrete teria condições de abrigar uma sala para filmes comerciais. Vejo o potencial público usufruindo disso. E muito pelo Projeto Cine Sesc, pela sala pocket do Coletivo Multicultural, pelos projetos de cinema da UERGS. Mesmo sem a estrutura adequada, o cinema tem marcado presença no município, sem falar nas produções cinematográficas que foram feitas nos últimos anos.

Portal: Como estão teus projetos para o restante do ano. Tanto como agente cultural do Sesc e ativista no Coletivo Multicultural ?

Paulo: Para dezembro, o Sesc ainda promoverá a última etapa do Projeto Sonora Brasil e alguns eventos literários. O Coletivo Multicultural está no processo de ornamentação natalina de sua sede para o desenvolvimento de um projeto de visitação a Mamãe Noel, que prevê contações de histórias, cinema temático, visita ao quarto do Papai Noel e outras surpresas.

Portal: Até que ponto a política ajuda ou prejudica o movimento cultural na cidade?

Paulo: A palavra política é muito ampla. Se te refere a política no sentido partidário, nesse caso, vai depender se no plano de governo do partido que está no poder há uma preocupação com a Cultura e suas multiplicidades. Havendo isso será muito benéfico, pois a partir de então cria-se possibilidades de incentivos importantes para o desenvolvimento de ações práticas nesse campo. Se não há, a Cultura será encarada como gasto e não investimento.

 Portal: Qual a mensagem que tu destacaria para os futuros governantes em relação a cultura, num âmbito municipal ?

Paulo:Gosto muito de lembrar de Fernando Birri, em citação de Eduardo Galeano em “Las Palavras Andantes?”, que diz assim:

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

A utopia se tornará possível sempre que nos propusermos a arregaçar as mangas e olhar com carinho as coisas, nos tornar sensíveis em relação a criação do outro, não julgar aquilo que desconhecemos, ver além do nosso “muro”, conhecer a arte produzida nas periferias, não elitizar o fazer artístico e aplaudir todo o esforço feito com dedicação e amor.

Júlio Cesar Santos                                           Fotos: Acervo pessoal

 

 

 

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