Professor agredido há 5 anos ainda faz tratamento: ‘A gente nunca mais é o mesmo’

Em duas semanas, cinco ocorrências foram registradas por agressões a professores na capital gaúcha. Conforme a Secretaria Estadual de Educação, no primeiro semestre do ano ocorreram 175 casos de agressões físicas em 181 dias.

Professor da rede pública, Elton Dornelles Castro sofreu agressão há cinco anos na escola em que trabalha, em Porto Alegre. Passado esse tempo, ele ainda precisa de tratamento psicológico. “A gente nunca mais é o mesmo. A gente carrega aquela coisa difícil que é ter passado por aquela situação que mexe muito com o emocional, a gente fica fragilizado”, resume.

Em duas semanas, ao menos cinco ocorrências foram registradas em delegacias de Porto Alegre sobre agressões a professores ou diretores. A última delas ocorreu na quarta-feira (7) na Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hilaire.

Três professores registraram ocorrência por lesão corporal na polícia. O diretor Ângelo Barbosa diz que cinco foram agredidos, no total. Os outros dois devem fazer o registro na polícia nesta quinta-feira (8).

Segundo a Polícia Civil, a agressora é mãe de uma aluna que foi impedida de participar de um passeio da turma por não ter pago. Ao saber que a filha havia sido excluída da atividade, a mulher teria ido à escola tirar satisfações, quando ocorreu a agressão.

As aulas na Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hilaire estão suspensas e só devem retornar na sexta-feira (9).

Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hillaire, no bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre — Foto: Reprodução/RBS TV

Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hillaire, no bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre — Foto: Reprodução/RBS TV

Todos os casos são investigados pela polícia. O sindicato dos professores do estado diz que a violência, seja ela física ou verbal, é mais um fator para o agravamento da saúde dos professores. O CPERS faz um levantamento informal e, até agora, mais de 100 educadores já relataram problemas emocionais ou depressão, decorrentes do trabalho.

“Qual era o objertivo desse levantamento? Era questionar junto ao governo do estado que o IPE [Instituto de Previdência do Estado do Rio Grande do Sul] não oferece tratamento psicológico, atendimento psiquiátrico… Não tem acompanhamento para as doenças emocionais”, explica a vice-presidente do CPERS, Solange da Silva Carvalho. “Tivemos casos de suicídio. Recebemos colegas com relatos que estavam à beira do suicídio. O efeito é devastador”, completa.

“Outra coisa que é muito importante: muitos educadores estão indo trabalhar sem tirar laudo, doentes, para não ter que faltar e ter o salário diminuído na questão do vale refeição. Essa agressividade que a sociedade está demonstrando e que está mirando a escola, está afetando muito os educadores”, acrescenta.

Dados da Secretaria Estadual da Saúde mostram que, no primeiro semestre deste ano, foram 175 casos de agressões físicas em 181 dias – ou seja, quase um por dia. Isso apenas nas escolas estaduais. Já os registros de agressões verbais chegam a 2.421 casos.

Para a secretaria, o caminho para redução dos conflitos passa pelas Cipaves, as Comissões Internas de Prevenção à Violência. Mas admite que não existe um serviço de acompanhamento psicológico específico para professores vítimas de violência.

“Nós temos condições, sim. Temos um representante da Cipave em cada Coordenadoria de Educação, que são 30, que têm condições de encaminhá-lo para um parceiro. Universidades que têm curso de psicologia, nós temos apoio deles, hospitais, sistema de saúde municipal, que também oferece serviço de psicologia. Nós temos cursos, seminários, diversas ações que poderiam sensibilizar toda a comunidade escolar, os pais, os alunos, para que eles enfrentassem essas diferenças, esses conflitos”, salienta a coordenadora da Cipave, Luciane Manfro.

O professor agredido há cinco anos participa de grupos antiviolência e de meditação. Ele conta que toma antidepressivo.

“Eu agora na escola, quando um aluno é mais agressivo, isso já vem na tua cabeça. Tu fica nervoso, preocupado, porque fica difícil de lidar com isso”, diz Elton.

“Para mim foi muito difícil, porque eu sempre tive uma relação com a escola como um espaço de educação mesmo, de paz, tranquilidade e troca de saberes. Aí, quando tu sofre uma agressão assim, mexe muito com o emocional, tu fica perdido, impactado, emocionalmente destruído… É bem difícil mesmo.”

Elton ficou seis meses afastado após a agressão. “Tu não imagina que vai ser agredido dentro do ambiente de trabalho.”

Casos das duas últimas semanas*

24/10: Escola Municipal Afonso Guerreiro Lima, bairro Lomba do Pinheiro
Professora é agredida por irmã de um aluno, que havia sido suspenso no dia anterior.

31/10: Escola Municipal de Ensino de Ensino Fundamental Grande Oriente, bairro Rubem Berta
Irmã de aluno agride professora que cai no chão e quebra os dentes. A professora havia chamado o estudante, que estava no pátio, para a sala de aula.

Cartazes feitos pelos alunos na escola do bairro Rubem Berta — Foto: Josmar Leite/RBS TV

Cartazes feitos pelos alunos na escola do bairro Rubem Berta — Foto: Josmar Leite/RBS TV

06/11: Escola Municipal de Ensino Infantil Vila Elizabeth, bairro Sarandi
Mãe de aluno ameaça professora, e teria jogado projetor contra ela.

06/11: Escola Estadual Vera Cruz, bairro Glória
Diretora sofre arranhão em discussão com mãe de dois alunos, que se atrasou cerca de 40 minutos para buscar os filhos e foi reprendida.

Cartaz na frente da escola Vera Cruz avisa sobre suspensão de aulas após agressão — Foto: Reprodução/RBS TV

Cartaz na frente da escola Vera Cruz avisa sobre suspensão de aulas após agressão — Foto: Reprodução/RBS TV

07/11: Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hillaire, bairro Lomba do Pinheiro
Professores foram agredidos pela mãe de uma aluna que foi impedida de participar de um passeio da turma por não ter pago.

*Fontes: Secretaria Estadual de Educação, Secretaria Municipal de Educação e Polícia Civil.

Fonte: G1

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