
Zulmira Prodocimo, conhecida como Nica, tem 80 anos, é cadeirante e faz questão de trabalhar todos os dias. Ela realiza sozinha o trajeto de casa até o restaurante, onde auxilia na cozinha, descascando legumes ou secando talheres.
Zulmira chamou atenção quando Jucelino Medeiros, diretor da Rádio Nativa FM, a encontrou durante um almoço. Ele ficou impressionado com sua determinação e entusiasmo. “Perguntei se ela precisava de algo, e ela respondeu com orgulho que trabalhava ali e fazia o trajeto todos os dias sozinha”, relatou.



Mas o que parecia ser uma simples demonstração de força de vontade revelou uma vida repleta de superações, fé e milagres. Nica não deixa que sua condição física ou sua idade sejam impedimentos. A reportagem do Portal Alegrete Tudo foi conhecer a história dela, que estava acompanhada de João Felipe Marques, marido da sobrinha, Luane Prodócimo. O carinho entre eles é visível, e ele a acompanhou enquanto narrava detalhes dessa história singular.

Uma infância marcada por fé e milagres
Filha de Dulzolina Betiolo e Antônio Prodócimo, Zulmira nasceu em Paim Filho, a cerca de 150 km de Passo Fundo. Durante sua infância, enfrentou as consequências de uma paralisia infantil que a impediu de caminhar até os cinco anos. Após muitas consultas e tratamentos sem sucesso, os médicos disseram que nada mais poderia ser feito.
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Sua mãe, em um ato de desespero e fé, suplicou a Nossa Senhora de Salete por um milagre e prometeu à Santa que levaria Zulmira em uma procissão, em Marcelino Ramos, se ela fosse curada. Por circunstâncias familiares, a própria menina não pôde ir, mas ela levou um vestido branco em sua intenção. Ao retornar, a mãe vestiu Zulmira e pediu que ela se levantasse e caminhasse. Em um ato que ela e seus familiares descrevem como milagroso, Zulmira conseguiu ficar de pé e andar pela primeira vez, realizando o que parecia impossível.
“Meu pai disse que, se eu conseguisse andar, me daria uma vaca que estava no quintal”, lembra Zulmira, sorrindo. Foi o início de sua devoção a Nossa Senhora de Salete, a quem chama de “mãe”.
Romarias e promessas de fé
Grata pelo milagre recebido, Zulmira prometeu dedicar sua vida à fé e ao auxílio de outras pessoas. Aos sete anos, iniciou a catequese e firmou seu desejo de seguir Jesus até o último dia de sua vida. “Oh, Jesus querido, eu não quero mais te abandonar; quero te seguir até o último dia.” Essa promessa tem guiado sua trajetória por décadas.
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Há 45 anos, com apoio de Frei Luiz Feronato, Zulmira realizou sua primeira romaria em Paim Filho. A cada ano, o número de fiéis cresceu, e, com esforços coletivos, ela conseguiu adquirir uma imagem da Santa, que à época custou 5 mil reais, recorda.

A procissão tornou-se uma tradição na região e motivou a construção de uma capela dedicada a Nossa Senhora de Salete, liderada por seu irmão Celso Prodócimo (in memorium). Mesmo após a morte de Celso, a devoção continuou, e hoje as romarias ocorrem em Alegrete. Desde então, relatos de bênçãos alcançadas e curas atribuídas às orações de Zulmira e à sua fé fervorosa se multiplicaram.
Milagres compartilhados por meio da fé
Zulmira não apenas recebeu um milagre; sua fé e orações também têm impactado a vida de outras pessoas. Relatos incluem casos de cura e superação atribuídos às suas preces. Um episódio marcante foi a cura de um padre de Alegrete diagnosticado com câncer de garganta. Após orações feitas por ela, ele se recuperou completamente e presenteou-a com um terço da Terra Santa.

Outro momento emocionante envolve uma criança que não conseguia sentar ou caminhar. Após uma oração feita por Zulmira, a criança começou a dar os primeiros passos em menos de seis meses.
Esses eventos fortaleceram ainda mais a reputação de Zulmira como uma mulher de fé inabalável. João Felipe conta que, em viagens com ela, o tempo é preenchido com orações. “A cada hora, ela reza o terço. Não importa onde esteja, ela está orando”, diz.
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Um exemplo de vida ativa e devoção

Mesmo utilizando cadeira de rodas, há 15 anos, Zulmira não deixa que limitações físicas interrompam sua rotina. Ela participa de missas, especialmente as Missas da Saúde realizadas às quintas-feiras. Felipe também reformou um espaço, em frente à churrascaria, onde construiu um santuário, com uma réplica da santa de Nossa Senhora de Salete, inspirado nas aparições na França.
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No primeiro ano que a romaria foi realizada em Alegrete, o evento foi em frente ao estabelecimento comercial, este ano, na Comunidade Nossa Senhora Conquistadora, e Felipe planeja um evento ainda maior para o próximo ano. “Devido a algumas limitações, agora com a cadeira, mais pela idade, optamos por realizar aqui, as Romarias, mesmo ocorrendo na cidade dela”- explicou.

O reconhecimento pela devoção de Zulmira ultrapassou as fronteiras. Relatos de pessoas que receberam graças por intermédio de suas orações se espalharam. Uma carta foi enviada ao Vaticano, relatando a história e o milagre que ela recebeu aos cinco anos de idade. Sua devoção foi reconhecida pelo Padre Paulo Aripe, que enviou uma carta ao Papa.
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Uma mensagem de fé e resiliência
A história de Zulmira Prodócimo é marcada por desafios, superação e uma devoção que transforma vidas. Para muitos, sua fé é um exemplo de que os milagres podem ocorrer quando há esperança e determinação. Mesmo aos 80 anos, ela continua desempenhando papéis importantes em sua comunidade, demonstrando que a idade ou as adversidades não são barreiras para viver com propósito e alegria.
Sua trajetória é um testemunho de gratidão, e sua vida é uma inspiração para todos que a conhecem. Como ela mesma diz, “se Deus me deu o milagre de andar, eu dedico cada dia a ajudar os outros e honrar minha mãe, Nossa Senhora de Salete.”
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O Padre Irineu Neto Guedes Machado da Paróquia Nossa Senhora Conquistadora, localizada na Zona Leste de Alegrete, descreveu:
“Falar sobre Zulmira Prodócimo não é fácil, pois corre-se o risco de não expressar em palavras o que ela nos faz sentir. Já, no primeiro encontro que tive com as lideranças paroquiais, tão logo houve a confirmação de que eu seria o Pároco, sua presença chamou-me atenção: em cadeira de rodas, sob um sol forte, foi a primeira a chegar. Portadora de uma serenidade impressionante, mantendo um sorriso contagiante em seus lábios, expressa a alegria por sua experiência de fé. Mulher repleta da Graça de Deus! Sem medir esforços é presença constante na comunidade: seja nos momentos celebrativos ou nas reuniões das lideranças. Sente-se satisfeita em desempenhar seu compromisso da oração do Terço, antes das celebrações Eucarísticas, a Santa Missa. Outro aspecto que considero importante é sua fidelidade e amor à Igreja. Dona Zulmira tem clareza do que é coordenar, pois sem ler ela distribui as tarefas e leituras, coordenando um grupo de reflexão, em sua comunidade, na Capela do Sagrado Coração de Jesus.
Que o testemunho desta nossa querida irmã, nos impulsione para um assumir com mais afinco nosso compromisso batismal. Longa vida para ela! Sou grato a Deus, por ela fazer parte de minha vida e contar com sua amizade, sua prece e o respeito pelo sacerdócio”.